quinta-feira, 1 de março de 2012

Entrevistas / Palestras
 
 
Yves de La Taille
Especialista em Psicologia Moral e chefe do Laboratório de Estudos do Desenvolvimento e da Aprendizagem do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

ENTREVISTA
Os mais diversos significados são atribuídos aos termos moral e ética. Qual a definição que o senhor adota?
YT: Na definição que eu proponho, a moral situa-se no campo do dever e refere-se à pergunta "como devo agir?", enquanto que a ética responde à questão "que vida quero viver?". Essas duas coisas são complementares, pois somos ao mesmo tempo submetidos às influências da dimensão da regra e da busca da felicidade.
O senhor poderia dar um exemplo do que seria uma conduta moral e uma conduta ética?
YT: Gosto de citar uma passagem da biografia do escritor francês Albert Camus. Ele conta que, quando pequeno, era um menino pobre que estudava numa escola de meninos ricos. Certo dia, uma professora pediu que cada estudante escrevesse sobre a profissão da mãe. Camus responde que a sua era empregada doméstica, mas fica com muita vergonha. Logo em seguida, sente vergonha de ter sentido vergonha. Na primeira vergonha há um valor ético, que é acreditar que uma boa vida implica riqueza. No segundo momento, há um valor moral, pois ele sabe que não deve ter vergonha da própria mãe.
Podemos dizer que existe hoje uma crise da moral?
YT: A sociedade capitalista em que vivemos assenta-se sobre uma base materialista, e portanto acaba associando a felicidade à posse, deixando de lado os valores mais transcendentes. É uma sociedade contraditória, que propaga valores morais como "não roubar" e "não mentir" e, ao mesmo tempo, vende a idéia de dinheiro, glória e consumo como objetivos a serem buscados para uma vida feliz. Surge assim uma contradição entre a moral e as respostas sobre a vida, em que a primeira é, na maioria das vezes, sacrificada.
A educação está falhando na forma de lidar com esse processo?
YT: Apesar de educadores importantes (como Paulo Freire) pregarem o contrário, a maioria das escolas foi virando as costas para a formação mais humanista e crítica e se voltando para uma educação técnica e pragmática, guiada pelo mercado. Eu diria, portanto, que a escola está falhando na sua função crítica, de funcionar como um filtro às várias influências e valores que são passados o tempo todo às crianças. Além disso, poucas escolas têm um trabalho pedagógico específico e bem elaborado para a educação moral como têm para a Matemática, para a Geografia... Ao contrário, quando se trata de educação para valores cada professor está isolado. A escola não está se organizando, não está levando a sério essa questão.
Pais e professores vivem empurrando uns para os outros a responsabilidade quanto à formação moral e ética das crianças. Qual a parte que cabe a cada um?
YT: Esse é um trabalho dos dois. A moral e a ética são valores culturais, e a criança é aculturada na família, na escola, na mídia, na rua etc... Tanto a escola quanto a família têm de deixar claros os seus valores e definições do que é uma vida plena. Se não o fazem, acabam sendo substituídas pela mídia, que exerce muito bem esse papel. Como já disse, hoje as respostas éticas e morais são freqüentemente contraditórias. As crianças ficam perdidas e isso evidentemente prejudica tanto o desenvolvimento moral quanto ético. Cabe à escola e à família ajudá-los nesse processo.
E a família e escola têm poder para isso? Mesmo diante de meios tão poderosos como a TV, que impõe valores diariamente às crianças?
YT: A televisão é um meio poderoso, é verdade. Mas a família e a escola também o são. O que falta é colocar de forma mais clara os seus valores, as suas respostas éticas, as suas regras e os princípios que inspiram essas regras.
Com os PCN, a ética passou a ser um tema transversal que deve ser abordado pelos professores das diversas disciplinas. Mas ensinar valores é bem diferente do que ensinar Matemática ou Língua Portuguesa. Na sua opinião, os docentes estão capacitados para isso?
YT: A questão da formação dos docentes toma uma dimensão totalmente diferente no campo da ética e da moral. No caso da Matemática, há o conteúdo e as técnicas para ensinar esse conteúdo. O mesmo acontece com a História, com a Língua Portuguesa, com a Educação Física. Com a moral e a ética é diferente. Antigamente, determinadas pessoas eram reconhecidas como porta-vozes legítimos da educação moral. O padre, por exemplo. Mas e hoje, quem tem legitimidade para isso? Não há um especialista em moral e ética. Logo, esse papel é exercido por todos os professores. Há muito pouco o que se fazer com relação à formação técnica, para que eles exerçam bem esse papel.
Devem, talvez, estudar um pouco sobre o que a psicologia do desenvolvimento tem a dizer sobre a criança. Saber, por exemplo, que uma criança de oito anos não consegue assimilar princípios, apenas regras concretas. O mais importante, porém, é saber trabalhar de forma em conjunto com os colegas. Um professor tem pouca força quando trabalha isoladamente. As políticas e estratégias devem ser discutidas coletivamente por toda a equipe de docentes e direção.

O senhor pode dar um exemplo de como seria esse trabalho em conjunto?
YT: Veja as campanhas que as escolas fazem contra o fumo. Quantas crianças não voltam para casa e brigam com os pais para deixarem o cigarro? A escola consegue influenciar a criança e a família sobre essa questão porque tem uma campanha bem feita, complexa, onde todos se mobilizam. Se, da mesma forma, ela se organizar para mostrar a importância de determinados valores, também terá bons resultados. A escola tem mais força do que imagina.
Isso significa que os valores só podem ser discutidos em grandes campanhas?
YT: Não, as campanhas funcionam quando se trata de um assunto que está diariamente na mídia, como a paz atualmente. Mas o importante no trabalho com valores é invadir a rotina escolar. A ética tem de estar presente no recreio, na reunião de pais, ou mesmo na hora de lidar com um aluno indisciplinado. Vamos imaginar um estudante que insiste em ficar conversando durante a aula. Ao invés de colocá-lo para fora, o educador pode levá-lo a refletir sobre a situação, fazê-lo se colocar no lugar do professor para perceber como ele se sente desrespeitado. Nesse momento, a moral e a ética estão sendo trabalhadas.
E como avaliar os resultados desse trabalho?
YT: A ética não pode ser avaliada. O professor pode apresentar valores que julga importantes, mas o aluno tem liberdade de decidir se os adota ou não. A avaliação, portanto, só pode ser sobre a moral. E eu diria que a melhor forma de avaliá-la é observar o comportamento da turma no dia-a-dia. O fato de ela estar mais respeitosa, mais pacífica, é o melhor indicador de que o trabalho está dando resultado.
Como saber quais valores e respostas éticas devem ser trabalhados?
YT: Isso quem deve definir é a escola. Existem alguns valores, como solidariedade e justiça, que estão na Constituição brasileira. Já as respostas éticas são mais complicadas. A escola tem de escolher os seus valores, princípios e regras e deixar isso bem claro para os pais. Ao criar, por exemplo, uma regra para impedir o uso do celular, deve deixar claro que por trás dessa decisão há um princípio, que é o de evitar interferências externas. Essas coisas aparentemente banais pressupõem uma profunda reflexão sobre valores morais e éticos. Com base nessa reflexão chega-se aos princípios - que, por sua vez, definem as regras que serão adotadas.
É importante o professor refletir mais, então?
YT: Sem dúvida. Para que a escola tenha sucesso na formação moral ela precisa refletir mais sobre os valores que quer adotar. E isso deve começar por uma reflexão pessoal de cada professor. Em geral, pessoas que têm clareza sobre os seus próprios valores trabalham mais facilmente esse tema.
(Por Priscila Ramalho)

2 comentários:

  1. Como a autora escreve, "para que a escola tenha sucesso na formação moral ela precisa refletir mais sobre os valores que quer adotar. E isso deve começar por uma reflexão pessoal de cada professor. Em geral, pessoas que têm clareza sobre os seus próprios valores trabalham mais facilmente esse tema". Assim penso também. somos seduzidos pela felicidade proporcionada pelo consumo e pela posse das coisas o que nos faz fechar os olhos para o que é certo fazer. Para ganhar tempo furo fila. Para ir bem na prova, colo. Para ganhar um jogo, engano. Esse jeitinho brasileiro, ainda está presente nos filhos pais e nos educadores. É preciso compreender que é preciso ser radical no que diz respeito aos valores. E que somente quando o discípulo (estudante) perceber que o mestre vivencia o que fala é que ele passa a dar valor no que o mestre está dizendo.
    Pedir para cuidar da separação do lixo e não separar não terá poder de influência sobre os estudantes.
    Vamos amigos, não é fácil buscar a ética e a moral, porém, acredito, não há outro caminho para quem se propôe a viver corretamente.

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  2. Gostaria de relatar minha experiência dessa semana. Passamos grande parte do tempo pedindo silêncio e/ou aumentando o volume de voz em virtude do barulho dos alunos na sala, sem êxito. Aprendemos no Encontro de Formação algumas coisas que poderíamos e deveríamos aplicar em sala de aula para melhor desempenho das aulas. Devemos falar normalmente mesmo nos confrontando com barulho de fala generalizada entre os alunos, não devemos aumentar o tom de voz e aguardar que os mesmos percebam que o professor deseja passar uma mensagem. Pois bem, comecei o experimento na quarta-feira no Jardim I e II e vejam que surpreendentemente funcionou. Na quinta-feira repeti a dose no sétimo ano também com êxito. Hoje, sexta-feira 02/03 adotei o mesmo procedimento e também funcionou. As aulas renderam e houve tempo de realizar leitura com os alunos. Excelentes resultados em curtíssimo espaço de tempo. Vale a pena mesmo!

    Grande abraço, pessoal!!!
    WENDEL VERZA
    Prof. de Espanhol

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